Cartilha 10
Saúde
Materno-Infantil
Plano Municipal de Saúde 2026-2029
São João da Ponta - PA
Assessoramento Akapu Saúde
Cuidar da mãe é cuidar da criança
A saúde materno-infantil é um dos campos mais sensíveis e mais observados das políticas públicas. Morte materna e morte infantil são indicadores que refletem não apenas o desempenho do sistema de saúde, mas o grau de desenvolvimento social de um território. Cada óbito evitável é sinal de alerta e exige resposta estruturada.
O SUS organiza a atenção materno-infantil em uma rede que começa no pré-natal e se estende pelo parto, puerpério, puericultura e saúde da criança até a adolescência. A Atenção Primária é o ponto nodal desse cuidado: é onde a gestante deve ser captada precocemente, acompanhada integralmente e articulada com os serviços de referência para o parto.
Em 2024, a Portaria GM/MS 5.350/2024 instituiu a Rede Alyne, que sucede e atualiza a Rede Cegonha, com foco na redução da mortalidade materna e infantil, qualificação do pré-natal, parto e puerpério, e enfrentamento de desigualdades raciais e territoriais. São João da Ponta é elegível à adesão e o PMS 2026-2029 prevê sua incorporação formal.
O retrato materno-infantil em São João da Ponta
Os dados do SINASC (base local), e-SUS AB e SIM permitem desenhar um cenário objetivo da atenção materno-infantil no município:
| Indicador | 2024 | 2025 | Fonte |
| Nascidos vivos (NV) | 77 | 81 | SINASC (base local) |
| Pré-natal com 7 ou mais consultas | 76,6% | 59,2% | SINASC (base local) |
| Partos normais | 47,6% a 55,56% (intervalo) | em apuração | SINASC (base local) |
| Gravidez na adolescência (10 a 19 anos) | 15,9% | em apuração | SINASC (base local) |
| Sífilis congênita | Diagnósticos ocorridos fora do município | SINAN regional |
Queda preocupante no pré-natal adequado.
A cobertura de pré-natal com 7 ou mais consultas caiu de 76,6% em 2024 para 59,2% em 2025, uma perda de mais de 17 pontos percentuais. Essa queda merece investigação: captação tardia, abandono de acompanhamento, falhas no registro ou dificuldade de acesso? Antes de definir metas, o PMS precisa entender o que aconteceu.
Gravidez na adolescência como prioridade.
Em 2024, 15,9% dos partos foram de adolescentes (10 a 19 anos), o que representa cerca de 12 de 77 nascimentos. O PMS 2026-2029 inclui ações específicas: planejamento reprodutivo na APS, presença do adolescente na agenda da eSF, articulação com escolas e CRAS.
Rede Alyne: o que muda
A Rede Alyne (Portaria GM/MS 5.350/2024) organiza a atenção materna e infantil em ciclos, com ênfase em humanização, equidade e redução da mortalidade. Suas diretrizes principais orientam a organização local.
Princípios da Rede Alyne
- Atenção integral e humanizada, respeitando autonomia da mulher e direitos reprodutivos.
- Equidade racial, territorial e geracional, com foco especial em mulheres pretas, pardas e indígenas.
- Acesso garantido a pré-natal, parto e puerpério de qualidade.
- Articulação interfederativa: pactuação entre União, Estados e Municípios.
- Vigilância do óbito materno, infantil e fetal com investigação de 100% dos casos.
- Busca ativa de gestantes e puérperas por meio da APS.
Componentes estruturantes
- Pré-natal na APS com captação precoce (antes da 12ª semana).
- Parto em ambiente adequado, com vínculo da gestante à maternidade de referência.
- Puerpério ampliado, com visita domiciliar nos primeiros 10 dias.
- Planejamento reprodutivo com oferta de métodos contraceptivos na APS.
- Apoio a aleitamento materno e saúde da criança nos primeiros anos de vida.
Pré-natal: o cerne da prevenção
Um pré-natal adequado é o instrumento mais eficaz para reduzir mortalidade materna e infantil. Ele permite identificar precocemente fatores de risco, tratar doenças, acompanhar o desenvolvimento fetal, preparar a mulher para o parto e para a maternagem.
O que é um pré-natal adequado
- Captação precoce, preferencialmente antes da 12ª semana de gestação.
- Mínimo de 7 consultas (1 no 1º trimestre, 2 no 2º e 3 no 3º, conforme PHPN).
- Exames laboratoriais conforme protocolo: hemograma, tipagem sanguínea, glicemia, sorologias (sífilis, HIV, hepatites, toxoplasmose, rubéola), urina, ultrassonografia.
- Imunizações: dTpa, influenza, hepatite B, COVID-19 conforme indicação.
- Suplementação de ácido fólico e ferro.
- Avaliação odontológica (Cartilha 7).
- Vinculação à maternidade de referência para o parto.
- Educação em saúde: grupo de gestantes, orientação sobre amamentação, parto e puerpério.
Exames obrigatórios no pré-natal
| Exame | 1º trimestre | 2º trimestre | 3º trimestre |
| Hemograma | Sim | - | Sim |
| Tipagem sanguínea e Rh | Sim | - | - |
| Glicemia de jejum | Sim | TTG 24-28 sem | - |
| VDRL / teste rápido sífilis | Sim | - | Sim |
| Anti-HIV / teste rápido HIV | Sim | - | Sim |
| HBsAg / teste rápido hepatite B | Sim | - | Sim |
| Anti-HCV | Sim | - | - |
| Toxoplasmose IgG/IgM | Sim | Se IgG neg | Se IgG neg |
| Urina tipo 1 e urocultura | Sim | Sim | Sim |
| USG obstétrica | Datação | Morfológica | Crescimento |
Sífilis e HIV na gestação
Sífilis congênita e transmissão vertical do HIV são agravos preveníveis e marcadores diretos da qualidade do pré-natal. A sífilis congênita, em particular, é agravo de notificação compulsória e objeto de vigilância específica.
Sífilis na gestação
- Teste rápido ou VDRL no 1º trimestre, 3º trimestre e no momento do parto.
- Diagnóstico positivo: tratamento imediato da gestante e do parceiro com penicilina benzatina, conforme esquema baseado no tempo de infecção.
- Tratamento adequado significa: penicilina benzatina G, concluído até 30 dias antes do parto, com titulação em queda.
- Notificação compulsória no SINAN (sífilis adquirida na gestante e sífilis congênita).
- Em São João da Ponta, diagnósticos de sífilis congênita ocorrem habitualmente fora do município (nas maternidades de referência). Isso reforça a necessidade de um pré-natal rigoroso na APS local.
HIV na gestação
- Teste rápido de HIV no 1º e 3º trimestres e no parto.
- Gestante com diagnóstico positivo: vinculação imediata ao SAE (Serviço de Assistência Especializada).
- Início ou manutenção da terapia antirretroviral (TARV) conforme protocolo.
- Parto programado em maternidade preparada, com profilaxia intraparto.
- Recém-nascido recebe profilaxia por 4 a 6 semanas e acompanhamento pediátrico especializado.
- Aleitamento materno contraindicado, com fornecimento de fórmula infantil.
Sífilis congênita é falha do sistema.
Todo caso de sífilis congênita deve ser investigado: onde falhou o pré-natal? A gestante fez os testes? O parceiro foi tratado? O tratamento foi adequado? A investigação gera aprendizado e corrige fluxos. A meta do PMS é eliminar a sífilis congênita em recém-nascidos de mães residentes em São João da Ponta.
Parto e puerpério
Em São João da Ponta, os partos ocorrem em maternidades de referência regional. A organização municipal envolve vinculação prévia, transporte e acolhimento pós-parto.
Vinculação à maternidade
- Toda gestante deve ter maternidade de referência definida desde o pré-natal.
- A visita à maternidade em fase avançada da gestação é recomendada para reconhecimento do local e do caminho.
- Transporte sanitário precisa estar organizado para deslocamento em trabalho de parto, especialmente em situações de urgência.
Via de parto
- O parto normal é a via preferencial, segura e com melhor recuperação para a mulher.
- Em São João da Ponta, a taxa de partos normais em 2024 ficou entre 47,6% e 55,56%, o que é razoável considerando o padrão regional, mas pode melhorar.
- Cesáreas devem ser indicadas por razão clínica justificada, não por conveniência.
- A educação no pré-natal ajuda a gestante a fazer escolha informada sobre a via de parto.
Puerpério
- O puerpério vai do parto até 42 dias após o nascimento.
- A primeira visita domiciliar pela APS deve ocorrer em até 10 dias após a alta hospitalar.
- Avaliação da mulher: sangramento, involução uterina, mamas, ferida operatória ou episiotomia, sinais de depressão pós-parto.
- Avaliação do recém-nascido: peso, alimentação, icterícia, coto umbilical, testes neonatais.
- Consulta de revisão puerperal na UBS, com planejamento reprodutivo.
Planejamento reprodutivo
Planejamento reprodutivo é direito reprodutivo garantido pela Lei 9.263/1996. Cabe ao SUS oferecer informação e meios para que a pessoa (homem ou mulher) decida livremente sobre ter ou não filhos, quando e quantos.
Métodos que devem estar disponíveis
- Preservativos masculinos e femininos (prevenção de ISTs e contracepção).
- Contraceptivos orais combinados e de progestágeno.
- Anticoncepcional injetável mensal e trimestral.
- DIU de cobre (disponível na APS conforme capacitação).
- Implante subdérmico (disponibilidade progressiva no SUS).
- Contracepção de emergência.
- Laqueadura tubária e vasectomia (via referência para serviço especializado).
Planejamento reprodutivo para adolescentes
- Acesso confidencial ao serviço.
- Dupla proteção (preservativo mais contraceptivo hormonal quando indicado).
- Articulação com o PSE (Programa Saúde na Escola).
- Prevenção de gravidez não intencional, com oferta ativa de métodos.
- Enfrentamento da gravidez na adolescência (15,9% em 2024 em SJP) como meta transversal do PMS.
Triagem neonatal e saúde da criança
A saúde da criança começa antes do nascimento, mas se concretiza nas ações pós-parto: testes neonatais, vacinação, aleitamento materno, acompanhamento do crescimento e desenvolvimento.
Os cinco testes neonatais obrigatórios
| Teste | O que detecta | Quando |
| Teste do pezinho | Doenças metabólicas, hematológicas e genéticas | 3º ao 5º dia de vida |
| Teste do olhinho | Catarata congênita, retinoblastoma, glaucoma | Ainda na maternidade |
| Teste da orelhinha | Deficiência auditiva | Na maternidade ou até 1 mês |
| Teste do coraçãozinho | Cardiopatias congênitas críticas | 24 a 48h de vida |
| Teste da linguinha | Anquiloglossia (freio lingual curto) | Na maternidade |
Puericultura
- Calendário mínimo: 1ª semana, 1, 2, 4, 6, 9, 12, 18, 24 meses; depois anual até 5 anos.
- Acompanhamento de crescimento (peso, estatura, perímetro cefálico) e desenvolvimento (marcos motores, linguagem, sociais).
- Avaliação da alimentação: aleitamento materno exclusivo até 6 meses, introdução alimentar após 6 meses.
- Atualização do calendário vacinal.
- Orientação aos pais sobre segurança, sono, prevenção de acidentes.
Aleitamento materno
- Aleitamento materno exclusivo até os 6 meses de idade.
- Aleitamento continuado até 2 anos ou mais.
- Apoio à amamentação desde a maternidade e, depois, nas visitas domiciliares puerperais.
- Combate ao marketing indevido de fórmulas infantis (NBCAL - Norma Brasileira de Comercialização de Alimentos para Lactentes).
Vigilância do óbito materno, infantil e fetal
Todo óbito materno, infantil ou fetal deve ser investigado. É exigência das Portarias GM/MS 1.119/2008 (óbito materno) e 72/2010 (óbito infantil e fetal). A investigação não é ato burocrático: é oportunidade de aprendizado e de correção de falhas.
O que é óbito materno
- Morte de mulher durante a gestação ou até 42 dias após o término da gestação, por causas relacionadas à gravidez, parto ou puerpério.
- Cada óbito materno gera ficha de investigação, discussão em comitê municipal ou regional e plano de ação.
O que é óbito infantil
- Morte de criança menor de 1 ano de idade.
- Divide-se em neonatal precoce (0 a 6 dias), tardio (7 a 27 dias) e pós-neonatal (28 dias a 1 ano).
- Investigação obrigatória, com discussão em comitê.
Óbito fetal
- Morte intraútero após 22 semanas de gestação (ou peso maior ou igual a 500g).
- Investigação obrigatória desde 2008, foco em causas evitáveis.
Comitê municipal de mortalidade.
O PMS 2026-2029 prevê a formalização do Comitê Municipal de Mortalidade Materna, Infantil e Fetal, com reuniões regulares, investigação de 100% dos óbitos e emissão de relatórios. Mesmo com baixa ocorrência (81 NV em 2025), cada caso precisa ser analisado.
Metas do PMS 2026-2029
| Eixo | Ação prevista | Prazo |
| Adesão | Aderir formalmente à Rede Alyne (Portaria GM/MS 5.350/2024) | 2026 |
| Pré-natal | Retomar e superar 76,6% de gestantes com 7 ou mais consultas | 2026-2029 |
| Captação | Ampliar captação precoce (antes da 12ª semana) | 2026-2029 |
| Sífilis | Eliminar a sífilis congênita em NV de SJP | 2027 |
| Adolescência | Reduzir gravidez na adolescência abaixo de 12% | 2029 |
| Testes neonatais | Garantir 100% dos cinco testes aos NV do município | 2026-2029 |
| Vigilância | Investigar 100% dos óbitos maternos, infantis e fetais | 2026-2029 |
| Puerpério | Garantir visita domiciliar puerperal em até 10 dias | 2026-2029 |
O que eu posso fazer?
Se você é enfermeiro ou médico da ESF:
- Capte gestantes precocemente: primeira consulta antes da 12ª semana.
- Garanta as 7 consultas mínimas, com os exames do protocolo.
- Oriente com clareza sobre parto, puerpério e amamentação.
- Vincule a gestante à maternidade de referência.
- Realize a visita puerperal em até 10 dias.
- Prescreva e ofereça métodos contraceptivos no planejamento reprodutivo.
Se você é ACS:
- Busque ativamente gestantes no território, especialmente as que não procuraram a UBS.
- Acompanhe a gestante em toda a gestação, com visitas periódicas.
- Apoie a puérpera e o recém-nascido, agendando a visita da equipe.
- Oriente a família sobre cuidados com o bebê e incentive a amamentação.
- Observe sinais de depressão pós-parto e alerte a equipe.
Se você é odontólogo:
- Acolha toda gestante captada no pré-natal.
- Realize consulta odontológica em qualquer trimestre.
- Oriente sobre higiene bucal do bebê e amamentação.
Se você é farmacêutico:
- Garanta sulfato ferroso, ácido fólico e contraceptivos disponíveis.
- Oriente sobre posologia e uso correto.
Se você é coordenador ou gestor:
- Formalize a adesão à Rede Alyne.
- Monitore mensalmente os indicadores de pré-natal.
- Investigue a queda no pré-natal adequado entre 2024 e 2025.
- Implante o Comitê Municipal de Mortalidade.
- Organize transporte sanitário para parto.
- Pactue formalmente as maternidades de referência.
Resumo rápido
| Pergunta | Resposta curta |
| O que é a Rede Alyne? | Política federal (Portaria GM/MS 5.350/2024) que sucede a Rede Cegonha, com foco em mortalidade materna e infantil. |
| Quantos nascimentos em SJP? | 77 em 2024 e 81 em 2025. |
| Quantas gestantes fizeram 7+ consultas? | 76,6% em 2024 e 59,2% em 2025 (queda a investigar). |
| Quantos partos normais? | Entre 47,6% e 55,56% em 2024. |
| Gravidez na adolescência? | 15,9% em 2024. |
| Quais são os cinco testes neonatais? | Pezinho, olhinho, orelhinha, coraçãozinho e linguinha. |
| Quando fazer visita puerperal? | Até 10 dias após a alta hospitalar. |
| Óbito materno precisa ser investigado? | Sim, todos, conforme Portaria GM/MS 1.119/2008. |
Referências normativas
- Portaria GM/MS 5.350/2024 - Institui a Rede Alyne.
- Portaria GM/MS 1.119/2008 - Vigilância do óbito materno.
- Portaria GM/MS 72/2010 - Vigilância do óbito infantil e fetal.
- Lei 9.263/1996 - Planejamento familiar.
- Lei 11.634/2007 - Vinculação da gestante à maternidade.
- Lei 14.154/2021 - Ampliação do Teste do Pezinho no SUS.
- Programa de Humanização do Pré-Natal e Nascimento (PHPN, Portaria GM/MS 569/2000).
- Caderno de Atenção Básica 32 - Atenção ao Pré-Natal de Baixo Risco.
Plano Municipal de Saúde 2026-2029 - São João da Ponta - PA | Assessoramento Akapu Saúde