Cartilha 9
Assistência
Farmacêutica
Plano Municipal de Saúde 2026-2029
São João da Ponta - PA
Assessoramento Akapu Saúde
O que é Assistência Farmacêutica
A Assistência Farmacêutica (AF) é o conjunto de ações que garantem o acesso da população a medicamentos seguros, eficazes e de qualidade, no momento certo, na quantidade certa e com o uso adequado. Vai muito além de "entregar remédio": envolve seleção, programação, aquisição, armazenamento, distribuição, dispensação e, principalmente, o cuidado farmacêutico ao paciente.
A Política Nacional de Assistência Farmacêutica (PNAF), aprovada pela Resolução CNS 338/2004, estrutura a AF como parte integral da política de saúde. No SUS, ela se organiza em três componentes: Básico, Estratégico e Especializado, cada um com fontes de financiamento e fluxos próprios.
Em São João da Ponta, a Farmácia Municipal está cadastrada no CNES sob o número 7850220. É o equipamento central da Assistência Farmacêutica municipal e é a partir dela que chega à população a maior parte dos medicamentos do SUS.
Os três componentes da Assistência Farmacêutica
Entender os componentes é essencial para organizar a AF municipal e dialogar com os gestores estadual e federal.
| Componente | O que inclui | Quem financia |
| Básico (CBAF) | Medicamentos essenciais da APS: anti-hipertensivos, antidiabéticos, antibióticos de primeira linha, contraceptivos, psicofármacos de uso frequente, insulinas | Tripartite: União, Estado e Município (cofinanciamento) |
| Estratégico (CESAF) | Programas específicos: tuberculose, hanseníase, HIV/aids, hepatites virais, imunobiológicos, sangue e hemoderivados | União (compra e distribui) |
| Especializado (CEAF) | Medicamentos de alto custo para doenças específicas (Parkinson, esclerose múltipla, imunossupressores, oncológicos ambulatoriais) | União e Estado (responsabilidade predominante do Estado) |
Em São João da Ponta, o esforço municipal concentra-se no Componente Básico da Assistência Farmacêutica (CBAF), que é o que chega à Farmácia Municipal e atende a maior parte da demanda da população. O CESAF e o CEAF chegam por meio dos fluxos estadual e federal.
CBAF em detalhe.
O Componente Básico é financiado pela Portaria GM/MS 3.193/2022 (e atualizações), que define valores per capita para União, Estado e Município. O município recebe repasses fundo a fundo na conta do Bloco de Manutenção das Ações e Serviços Públicos de Saúde, e deve aplicar em aquisição de medicamentos da REMUME.
A Farmácia Municipal de São João da Ponta
A Farmácia Municipal (CNES 7850220) é o ponto de dispensação do CBAF e de parte dos medicamentos do CESAF. Suas funções vão muito além da entrega:
Funções da Farmácia Municipal
- Seleção: elaborar e atualizar a Relação Municipal de Medicamentos (REMUME), com base na Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (RENAME) e no perfil epidemiológico local.
- Programação: estimar a quantidade necessária de cada medicamento para atender à demanda, considerando a população-alvo, o consumo histórico e o perfil de doenças.
- Aquisição: executar a compra dos medicamentos selecionados, cumprindo os ritos de licitação e dentro dos limites orçamentários.
- Armazenamento: garantir condições adequadas de temperatura, umidade, luz, prazos de validade e segurança.
- Distribuição interna: repor as unidades de saúde do município com as quantidades programadas.
- Dispensação: entregar o medicamento ao usuário com orientação farmacêutica qualificada.
- Farmacovigilância: identificar e notificar reações adversas a medicamentos.
- Registro e controle: manter registros fidedignos de entradas, saídas e estoques.
Quem trabalha na Farmácia
- Farmacêutico: responsável técnico pela unidade, pela dispensação, pela farmácia clínica e pela farmacovigilância. Presença obrigatória conforme Lei 13.021/2014.
- Auxiliares ou técnicos: apoio na dispensação, organização, controle de estoque.
REMUME: a Relação Municipal de Medicamentos
A REMUME é a lista oficial dos medicamentos que o município disponibiliza à sua população. Elaborá-la não é copiar a RENAME: é adaptar a relação nacional à realidade local.
Princípios da REMUME
- Baseada na RENAME vigente (Relação Nacional de Medicamentos Essenciais, atualizada periodicamente pela Conitec).
- Ajustada ao perfil epidemiológico do município.
- Revisada periodicamente (pelo menos a cada 2 anos) pela Comissão de Farmácia e Terapêutica (CFT) ou equivalente.
- Aprovada formalmente e publicada.
- De conhecimento de todos os prescritores do município.
Como se organiza
| Grupo | Exemplos de medicamentos |
| Cardiovasculares | Captopril, enalapril, losartana, hidroclorotiazida, anlodipino, propranolol, sinvastatina |
| Antidiabéticos | Metformina, glibenclamida, insulina NPH, insulina regular |
| Analgésicos e AINEs | Dipirona, paracetamol, ibuprofeno |
| Antibióticos | Amoxicilina, cefalexina, azitromicina, ciprofloxacino, sulfametoxazol-trimetoprim |
| Saúde da mulher | Ácido fólico, sulfato ferroso, contraceptivos orais e injetáveis |
| Saúde mental | Fluoxetina, sertralina, amitriptilina, diazepam, clonazepam, haloperidol, carbamazepina |
| Respiratórios | Salbutamol, beclometasona, prednisolona |
| Gastrointestinais | Omeprazol, ranitidina, sais de reidratação oral |
Revisão da REMUME é meta do PMS.
O PMS 2026-2029 prevê a revisão e publicação da REMUME municipal, articulando a Farmácia Municipal, a APS e a coordenação da Assistência Farmacêutica. A revisão é oportunidade para adequar a lista à prevalência local de hipertensos (1.468) e diabéticos (856) cadastrados.
Sistema Hórus: a pendência crítica
O Sistema Hórus é o sistema nacional de gestão da Assistência Farmacêutica disponibilizado gratuitamente pelo Ministério da Saúde. Ele permite registrar entradas e saídas de medicamentos, controlar estoque, acompanhar validade, gerar relatórios de dispensação e monitorar indicadores de acesso.
Em São João da Ponta, o Sistema Hórus ainda não está implantado. Essa é uma pendência importante da Assistência Farmacêutica municipal, registrada formalmente no PMS 2026-2029 como compromisso a ser equacionado.
Por que o Hórus importa
- Padroniza o registro da AF em todo o país, permitindo comparabilidade de dados.
- Gera indicadores obrigatórios para prestação de contas ao Ministério da Saúde.
- Facilita o controle de estoque, evita perdas por validade e desabastecimento.
- É instrumento de transparência: dados de dispensação podem alimentar relatórios do RDQA e do RAG.
- Pode integrar com e-SUS AB, permitindo cruzar dispensação com prontuário.
Caminho para implantação
- Solicitação oficial de acesso ao Ministério da Saúde e capacitação da equipe da Farmácia Municipal.
- Preparação da infraestrutura: computador, internet estável, responsável técnico designado.
- Cadastramento inicial: elenco de medicamentos, unidades de dispensação, usuários.
- Implantação gradual, começando pela Farmácia Central e estendendo às UBS.
- Monitoramento contínuo da qualidade dos registros.
Compromisso formal.
A ausência do Hórus deve ser declarada no RDQA como pendência estrutural, com prazos de implantação definidos. O PMS 2026-2029 prevê implantação até o segundo ano de execução (2027).
Uso racional de medicamentos
Uso racional de medicamentos (URM) significa que cada pessoa recebe o medicamento adequado à sua necessidade clínica, na dose correta, pelo tempo certo e com o menor custo possível para si e para a coletividade. O conceito é da Organização Mundial da Saúde e orienta toda a AF no SUS.
Os quatro pilares do URM
- Prescrição racional: baseada em diagnóstico correto, escolha do medicamento adequado, dose e duração apropriadas.
- Dispensação qualificada: farmacêutico verifica a prescrição, orienta o usuário sobre uso, conservação, possíveis efeitos.
- Adesão ao tratamento: o usuário compreende o tratamento, tem acesso contínuo e o segue como prescrito.
- Farmacovigilância: identificação, notificação e análise de reações adversas.
Problemas frequentes no uso irracional
- Polifarmácia em idosos, com interações medicamentosas.
- Uso inadequado de antibióticos (prescrição para viroses, abandono antes do fim do ciclo), gerando resistência.
- Automedicação com medicamentos que exigem prescrição.
- Falta de adesão em doenças crônicas, com descontinuidade do tratamento.
- Uso prolongado de benzodiazepínicos sem reavaliação.
Dispensação: o momento do encontro
A dispensação é o ato farmacêutico em que o medicamento é entregue ao usuário. Parece simples, mas é o momento em que a AF entra em contato direto com a pessoa. Bem feita, garante adesão e segurança. Mal feita, compromete o tratamento todo.
Elementos de uma boa dispensação
- Verificação da prescrição (legibilidade, adequação, presença de dados do paciente e do prescritor).
- Conferência do medicamento: nome, dose, forma farmacêutica, quantidade, validade.
- Orientação verbal: como usar, quando usar, por quanto tempo, o que fazer se esquecer, efeitos adversos mais comuns.
- Orientação por escrito quando necessário, especialmente para idosos ou pessoas com dificuldade de leitura.
- Registro da dispensação (ideal no Hórus; enquanto não implantado, em planilha ou livro de registro).
- Identificação de oportunidades para cuidado farmacêutico em casos mais complexos.
Medicamentos sob controle especial (Portaria SVS/MS 344/1998)
- Psicofármacos, opioides, anabolizantes e retinoides têm regras especiais de dispensação.
- Exigem receita específica (receita B, B2, C, etc.), retenção da receita e escrituração.
- A Farmácia Municipal deve ter autorização da Vigilância Sanitária e cumprir os controles de escrituração.
- Autoinspeção periódica ajuda a evitar desvios e facilita fiscalizações.
Controle de estoque e logística
Um estoque bem gerido é a base de uma AF funcional. Sem controle, há desabastecimento em alguns itens e perdas por validade em outros.
Boas práticas de controle
- Controle de entradas: toda nota fiscal conferida contra o pedido, com verificação de lote e validade.
- Controle de saídas: toda dispensação registrada, toda transferência interna documentada.
- Inventário periódico: contagem física com comparação ao registrado, pelo menos trimestralmente.
- Curva ABC: classificar medicamentos por valor movimentado para priorizar o controle dos mais críticos.
- Ponto de pedido: definir o estoque mínimo que dispara nova aquisição, evitando ruptura.
- Gestão de validade: PEPS (primeiro que entra, primeiro que sai) e lista de itens próximos ao vencimento, com ações de redistribuição ou troca.
Armazenamento correto
- Temperatura adequada (termolábeis em geladeira com termômetro monitorado diariamente).
- Proteção contra luz direta e umidade.
- Separação por forma farmacêutica e por ordem alfabética.
- Identificação de medicamentos de alta vigilância (look-alike, sound-alike).
- Controle de acesso e segurança física para medicamentos controlados.
Farmácia clínica na APS
Farmácia clínica é o ramo da prática farmacêutica voltado ao cuidado direto ao paciente. Vai além da dispensação: envolve consulta farmacêutica, conciliação medicamentosa, acompanhamento farmacoterapêutico.
O que o farmacêutico clínico faz
- Consulta farmacêutica individualizada, especialmente para pacientes com múltiplas doenças e medicamentos.
- Conciliação medicamentosa na alta hospitalar ou mudança de cuidado.
- Acompanhamento de pacientes com DCNT (diabetes, hipertensão, asma): adesão, efetividade, segurança.
- Suporte à equipe da ESF em discussões clínicas.
- Atividades educativas com grupos de hipertensos, diabéticos, idosos.
Prioridade em São João da Ponta
Os dados locais apontam claramente onde concentrar o cuidado farmacêutico:
| Grupo | Cadastrados | Intervenção prioritária |
| Hipertensos | 1.468 pessoas | Adesão, combinações racionais, rastreio de efeitos adversos |
| Diabéticos | 856 pessoas | Educação sobre insulinoterapia, monitoramento glicêmico, uso de metformina |
| Pacientes em tratamento psiquiátrico | 223 pessoas (Cartilha 8) | Reavaliação de psicofármacos, retirada gradual de benzodiazepínicos quando possível |
| Idosos com polifarmácia | Público da Cartilha 11 | Desprescrição criteriosa, revisão periódica |
Hipertensão e diabetes: onde a farmácia faz diferença.
Com 1.468 hipertensos e 856 diabéticos cadastrados, São João da Ponta tem um volume relevante de pacientes que se beneficiam diretamente de acompanhamento farmacêutico. A dispensação qualificada, com orientação sobre horários, efeitos colaterais e importância da adesão, reduz descompensações, internações e óbitos cardiovasculares.
Assistência Farmacêutica no PMS 2026-2029
| Eixo | Ação prevista | Prazo |
| Organização | Revisar e publicar REMUME municipal | 2026 |
| Gestão | Implantar Sistema Hórus na Farmácia Municipal | Até 2027 |
| Qualificação | Plano municipal de uso racional de medicamentos | 2026-2027 |
| Cuidado | Implantar consulta farmacêutica para hipertensos e diabéticos | 2026-2029 |
| Estrutura | Adequar estrutura física e informática da Farmácia Municipal | 2026-2027 |
| Controle | Implantar inventário trimestral e gestão de validade | 2026 |
| Transparência | Publicar relatórios periódicos de dispensação e estoques | 2026-2029 |
O que eu posso fazer?
Se você é farmacêutico:
- Assuma a liderança da implantação do Sistema Hórus.
- Conduza a revisão periódica da REMUME.
- Implante a consulta farmacêutica para pacientes crônicos.
- Participe das reuniões de equipe da APS para discutir casos.
- Notifique reações adversas ao Notivisa.
Se você é auxiliar ou técnico de farmácia:
- Garanta registro correto de entradas e saídas.
- Mantenha o armazenamento conforme as boas práticas.
- Oriente o usuário sobre conservação do medicamento em casa.
- Alerte a equipe sobre validades próximas.
Se você é prescritor (médico, enfermeiro, odontólogo):
- Prescreva sempre que possível medicamentos da REMUME.
- Escreva receitas legíveis, com dose, posologia e duração claras.
- Reavalie periodicamente as prescrições de uso contínuo.
- Desprescreva quando o benefício clínico já não justifica.
Se você é ACS:
- Identifique pacientes com dificuldade de acesso, adesão ou compreensão do tratamento.
- Encaminhe para consulta farmacêutica quando necessário.
- Oriente sobre conservação domiciliar, principalmente de insulinas.
- Observe armários cheios de medicamentos vencidos nas visitas e oriente o descarte.
Se você é coordenador ou gestor:
- Garanta contrapartida municipal do CBAF.
- Estruture fisicamente a Farmácia Municipal.
- Implante o Sistema Hórus com cronograma claro.
- Monitore indicadores de acesso e desabastecimento.
- Inclua a Assistência Farmacêutica na pauta do Conselho Municipal de Saúde.
Resumo rápido
| Pergunta | Resposta curta |
| Onde fica a Farmácia Municipal? | Cadastrada no CNES sob o número 7850220. |
| Quais são os componentes da AF? | Básico (CBAF), Estratégico (CESAF) e Especializado (CEAF). |
| Quem financia o CBAF? | União, Estado e Município em cofinanciamento tripartite. |
| O que é a REMUME? | Relação Municipal de Medicamentos, lista oficial do município. |
| O Hórus está implantado em SJP? | Não. Pendência declarada no PMS, com implantação prevista até 2027. |
| Quantos hipertensos e diabéticos cadastrados? | 1.468 hipertensos e 856 diabéticos (e-SUS AB). |
| O que é uso racional de medicamentos? | Medicamento certo, na dose certa, pelo tempo certo, para a pessoa certa. |
| O que é farmácia clínica? | Cuidado farmacêutico direto ao paciente, com consulta e acompanhamento. |
Referências normativas
- Resolução CNS 338/2004 - Política Nacional de Assistência Farmacêutica.
- Portaria GM/MS 3.193/2022 - Financiamento do Componente Básico da Assistência Farmacêutica.
- Lei 13.021/2014 - Exercício e fiscalização das atividades farmacêuticas.
- Portaria SVS/MS 344/1998 - Regulamento técnico sobre substâncias e medicamentos sujeitos a controle especial.
- Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (RENAME) vigente.
- Política Nacional de Medicamentos (Portaria GM/MS 3.916/1998).
Plano Municipal de Saúde 2026-2029 - São João da Ponta - PA | Assessoramento Akapu Saúde