Cartilha 6

Gestão do Trabalho
e Educação Permanente

Plano Municipal de Saúde 2026-2029

São João da Ponta - PA

Assessoramento Akapu Saúde

O que é Gestão do Trabalho no SUS?

Gestão do Trabalho é a área que cuida das pessoas que fazem o SUS funcionar: médicos, enfermeiros, dentistas, agentes comunitários, técnicos, motoristas, administrativos. É tudo o que envolve contratar, valorizar, capacitar e manter esses profissionais trabalhando com qualidade.

O SUS só existe porque tem gente. Equipamento sem profissional não atende. UBS sem enfermeiro não funciona. Ambulância sem condutor não sai. Por isso, a gestão do trabalho é tão importante quanto a gestão do dinheiro ou dos medicamentos.

Em São João da Ponta, uma das diretrizes do PMS 2026-2029 trata exatamente disso:

Contribuir para a adequada formação, alocação, qualificação, valorização e democratização das relações de trabalho dos trabalhadores do SUS.

Quem são os profissionais de saúde de São João da Ponta?

O município opera uma rede com 5 Unidades Básicas de Saúde (incluindo a UBS Guarajuba em área ribeirinha), 1 Centro de Saúde Especial sob gestão estadual, Polo Academia da Saúde, Unidade de Vigilância, Farmácia municipal e Central de Gestão. Não há hospital, UPA, SAMU nem CAPS próprios - a referência é regional.

As principais categorias de profissionais que atuam na saúde do município são:

CategoriaOnde atuam
Médicos (ESF)UBS, principalmente via Programa Mais Médicos para o Brasil (PMMB)
EnfermeirosUBS, com vínculos predominantemente temporários
Técnicos e auxiliares de enfermagemUBS
Cirurgiões-dentistas3 equipes de Saúde Bucal
Agentes Comunitários de Saúde (ACS)15 em atividade (8 no CBO 5151-05 e 7 reclassificados como TACS, CBO 3222-55); 1 vaga frente ao teto de 16
Agentes de Combate a Endemias (ACE)Vigilância ambiental
FarmacêuticoFarmácia municipal
Apoio matricial (ex-NASF / eMulti)O NASF-AB foi extinto pela Portaria GM/MS 635/2023 e substituído pelo modelo eMulti (Equipe Multiprofissional na APS). O município ainda não solicitou habilitação de eMulti; o CNES 7850220 permanece como registro residual e o apoio matricial está formalmente descontinuado.

A cobertura de equipes de Saúde da Família é de 100% (3 eSF), assim como a de Saúde Bucal (3 eSB). Isso significa que toda a população de São João da Ponta está coberta por equipes de atenção primária. O desafio não é ter equipe no papel: é garantir que essas equipes estejam completas, estáveis e qualificadas.


Vínculos trabalhistas: o que está acontecendo em São João da Ponta

Este é o ponto mais crítico da gestão do trabalho no município. Os dados mostram um quadro de precarização grave dos vínculos de trabalho.

Força de trabalho da saúde de SJP

IndicadorSituação
Médicos e enfermeiros com vínculo estávelZero (todos temporários ou via PMMB)
Total da força de trabalho em vínculos temporários48,9%
ACS em 202515 em atividade (8 no CBO 5151-05 e 7 reclassificados como TACS, CBO 3222-55); 1 vaga frente ao teto de 16
Visitas domiciliares dos ACS-29% desde 2022 (de 37.109 para 26.388)
Risco financeiroSubcontagem nos repasses FNS (cerca de R$ 36 mil/agente/ano) se a apuração ignorar o CBO 3222-55

O que isso significa na prática?


O que é desprecarização?

Desprecarização é o processo de substituir vínculos temporários por vínculos protegidos: concurso público, cargos efetivos, plano de carreira. O PMS 2026-2029 tem uma meta direta sobre isso:

Meta do DOMI: ampliar a proporção de trabalhadores com vínculos protegidos e recompor o quadro de ACS (12 em 2026 e 16 até 2029).

Para cumprir essa meta, o município precisa:

  1. Realizar concurso público para as categorias mais precarizadas (enfermeiros, médicos e ACS, prioritariamente).
  2. Elaborar ou revisar o Plano de Cargos e Salários (PCS) municipal, que hoje precisa ser atualizado para contemplar as categorias atuais da rede.
  3. Garantir remuneração competitiva para atrair e fixar profissionais, considerando que o município concorre com Castanhal e Belém.
  4. Recompor os ACS: sair dos 8 atuais para 12 em 2026 e 16 até 2029, assegurando visita domiciliar, busca ativa e cobertura territorial.

O Plano de Cargos e Salários (PCS) municipal está em processo de revisão como parte das ações da Diretriz de Gestão do Trabalho. Esse instrumento precisa ser aprovado e efetivamente aplicado para que a desprecarização saia do papel.


Fixação de profissionais no interior amazônico

São João da Ponta está na Amazônia Legal (Mesorregião Nordeste Paraense, Microrregião de Castanhal), com área de 195,99 km², economia baseada em pesca artesanal e agricultura familiar, e comunidades ribeirinhas como Guarajuba. Fixar profissionais de saúde nesse contexto é um desafio que vai além do salário.

O que dificulta a fixação:

O que pode ajudar:

A pactuação do SAMU regional com Castanhal, via CIR, é parte dessa estratégia. O atendimento pré-hospitalar profissional se faz por pactuação, uma vez que o município não tem porte para SAMU próprio.


O que é Educação Permanente e por que importa

Educação Permanente em Saúde (EP) não é a mesma coisa que treinamento ou curso. É um processo contínuo de aprendizagem no próprio ambiente de trabalho, a partir dos problemas reais que as equipes enfrentam.

Exemplos práticos de EP:

A meta do PMS (Gestão do Trabalho e EP)

O PMS prevê manter ações anuais de Educação Permanente em todos os exercícios de 2026 a 2029, com foco nas áreas prioritárias apontadas no diagnóstico.

Áreas prioritárias para EP no quadriênio 2026-2029:

Um problema sério: quando a maioria dos profissionais é temporária, o investimento em educação permanente tem retorno reduzido. A pessoa é capacitada, mas ao final do contrato sai do município, levando o conhecimento junto. Desprecarizar os vínculos é condição para que a educação permanente funcione de verdade.

Mesa de negociação permanente: o que é e como participar

A mesa de negociação permanente do SUS é um espaço onde gestão e trabalhadores sentam juntos para discutir condições de trabalho, remuneração, jornada, conflitos e melhorias.

Meta do PMS: implantar e manter mesa de negociação permanente do SUS no município.

Não é um espaço apenas para reclamar. É um mecanismo formal de diálogo, previsto na Política Nacional de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde.

Quem participa:

O que pode ser discutido:

Se você é profissional de saúde de São João da Ponta, tem o direito de saber que esse espaço existe e de participar por meio dos seus representantes.


As metas do PMS que envolvem os trabalhadores

As metas da Diretriz de Gestão do Trabalho estão diretamente ligadas a você:

MetaO que significa
Ampliar ações de educação permanenteCapacitação continuada em áreas prioritárias do PMS
Completar e qualificar o quadro de ACSDe 15 em 2025 para 16 em 2029, preenchendo a vaga restante e padronizando o cadastro no código vigente (Meta 4.1.1 do DOMI)
Ampliar vínculos protegidosReduzir o percentual de vínculos temporários
Implantar mesa de negociação permanente do SUSEspaço formal de diálogo gestão/trabalhadores
Aprovar/revisar o PCS municipalPlano de Cargos e Salários contemplando todas as categorias

Mas a gestão do trabalho não aparece só nessa diretriz. Quando o PMS fala em retomar o pré-natal (caiu de 76,6% para 59,2%), recuperar a cobertura vacinal (apenas 1 de 16 vacinas em 95%) ou acompanhar os 223 pacientes em tratamento psiquiátrico via APS + matriciamento regional, tudo isso depende de ter profissionais suficientes, qualificados e com condições de trabalho adequadas.

Destaque: Sem trabalhador, não tem SUS.

O que eu posso fazer?

Você que trabalha na saúde de São João da Ponta é parte fundamental do PMS 2026-2029. Veja o que está ao seu alcance:

1. Conheça as metas que envolvem seu trabalho. Cada área tem metas específicas no PMS. Pergunte à sua coordenação quais são os indicadores do seu setor e como você pode contribuir para alcançá-los.

2. Registre tudo o que você faz. Atendimento sem registro não existe para o sistema. Cada consulta, visita domiciliar, vacina aplicada, notificação feita é um dado que alimenta os indicadores do PMS. Se você não registra, o município não consegue mostrar o trabalho que foi feito.

3. Participe das ações de educação permanente. Quando houver capacitação, reunião de equipe, discussão de caso ou roda de conversa, participe. Educação permanente não é favor da gestão: é direito do trabalhador e necessidade do serviço.

4. Conheça seus direitos trabalhistas. Se você tem vínculo temporário, saiba que o PMS tem meta de desprecarização. Acompanhe pelo Conselho Municipal de Saúde se ações concretas estão sendo tomadas (concurso público, atualização do plano de carreira).

5. Use a mesa de negociação. Se a mesa de negociação permanente do SUS existir no município, ela é o espaço formal para tratar condições de trabalho. Procure seus representantes sindicais ou de associação profissional e leve suas demandas.

6. Contribua para o monitoramento. O PMS é acompanhado a cada quatro meses pelo RDQA e anualmente pelo RAG. Os dados que você registra no dia a dia são os que aparecem nesses relatórios. O Conselho Municipal de Saúde analisa esses relatórios em audiência pública. Se os indicadores não evoluem, a cobrança é sobre a gestão, mas o dado vem do seu trabalho.

7. Ajude a fixar colegas. Se você é profissional estável, ajude a integrar os colegas que chegam. Uma boa recepção, a troca de experiência e o apoio no dia a dia fazem diferença para quem está decidindo se fica ou vai embora.


Resumo rápido

PerguntaResposta curta
O que é Gestão do Trabalho?Cuidar das pessoas que fazem o SUS funcionar
Qual o maior problema em SJP?Zero médicos e enfermeiros com vínculo estável; queda de 29% nas visitas domiciliares dos ACS apesar do quadro mantido
O que é desprecarização?Trocar vínculos temporários por concurso e carreira
O que é Educação Permanente?Aprendizagem contínua a partir dos problemas do trabalho
O que é a mesa de negociação?Espaço de diálogo entre gestão e trabalhadores
Qual a diretriz no PMS?Gestão do Trabalho: formação, valorização e democratização das relações de trabalho
O que eu posso fazer?Registrar, participar, conhecer seus direitos e contribuir para o monitoramento
Assessoramento Akapu Saúde