Cartilha 4

Recursos Financeiros
e Orçamento

Plano Municipal de Saúde 2026-2029

São João da Ponta - PA

Assessoramento Akapu Saúde

De onde vem o dinheiro da saúde?

A saúde pública de São João da Ponta não funciona só com dinheiro do município. Em 2024, 94,73% do financiamento da saúde municipal veio de transferências intergovernamentais (SIOPS 2024), o que mostra uma forte dependência de recursos externos. O financiamento do SUS vem de três fontes, cada uma com regras próprias:

FonteDe onde vemComo chega
FederalGoverno Federal, via Fundo Nacional de Saúde (FNS)Transferência fundo a fundo, direto para a conta do Fundo Municipal de Saúde
EstadualGoverno do Pará, via Fundo Estadual de Saúde (FES)Transferência fundo a fundo ou convênios
MunicipalArrecadação do próprio município (impostos, taxas, transferências constitucionais)Dotação orçamentária da Prefeitura para o Fundo Municipal de Saúde
Na prática: quando você atende um paciente na UBS, o salário da equipe, os medicamentos, os insumos e a manutenção do prédio são pagos com recursos que vêm dessas três fontes. Se qualquer uma falha, o impacto chega na ponta.

O que é o Fundo Municipal de Saúde?

O Fundo Municipal de Saúde é a conta bancária onde entram todos os recursos destinados à saúde do município. Ele funciona como um "cofre" separado: o dinheiro que entra no Fundo só pode ser usado para ações e serviços de saúde.

As transferências federais (PAB fixo, PAB variável, incentivos de programas) caem diretamente no Fundo, sem passar pela conta geral da Prefeitura. Isso é o que se chama de transferência fundo a fundo: o Fundo Nacional de Saúde transfere para o Fundo Municipal de Saúde.

Por que isso importa? Porque garante que o dinheiro da saúde não seja desviado para outras áreas. E porque toda prestação de contas do SUS é feita a partir do que entra e sai do Fundo.


Os blocos de financiamento

Os recursos federais para a saúde são organizados em dois grandes blocos:

BlocoO que financiaExemplos
CusteioDespesas do dia a dia: salários, materiais, medicamentos, exames, manutençãoPAB fixo, incentivos das equipes de Saúde da Família, SAMU, vigilância, assistência farmacêutica
InvestimentoObras, equipamentos, ampliaçõesConstrução de UBS, compra de veículos, equipamentos de saúde bucal

A maior parte dos recursos que São João da Ponta recebe é de custeio: manter as equipes funcionando, comprar insumos, pagar profissionais. Em 2025, as transferências do FNS somaram R$ 2.656.127,90. Recursos de investimento são mais pontuais e geralmente vêm por meio de emendas parlamentares ou programas específicos do Ministério da Saúde.


A obrigação dos 15%

A Constituição Federal e a Lei Complementar 141/2012 determinam que todo município deve aplicar, no mínimo, 15% de suas receitas de impostos e transferências constitucionais em ações e serviços públicos de saúde (ASPS). Isso não é opcional. É obrigação legal.

Descumprir o mínimo de 15% pode gerar:

Como São João da Ponta se saiu recentemente?

Referência 2024PercentualSituação
Mínimo constitucional por despesas empenhadas16,06%Acima do piso (15%), com margem estreita
Mínimo constitucional por despesas pagas14,13%Abaixo do piso
Restos a pagar indevidos (2024)R$ 612.576Risco de irregularidade
Subfunções 303, 304 e 306ZeradasObrigatórias não executadas

O quadro é preocupante. Embora o índice por despesas empenhadas esteja acima dos 15%, o cálculo por despesas pagas (14,13%) fica abaixo do piso, e os restos a pagar indevidos de R$ 612.576 em 2024 indicam falha de gestão financeira. Três subfunções obrigatórias (303 - Suporte Profilático e Terapêutico, 304 - Vigilância Sanitária, 306 - Alimentação e Nutrição) estão zeradas, o que compromete a alocação setorial mínima exigida. A despesa total em saúde em 2025 foi de R$ 6.845.139,49, queda de 10% em relação a 2024.

Lição para o PMS 2026-2029: o município precisa trabalhar com meta interna confortável acima dos 15% (por exemplo 17% a 18%), garantindo margem de segurança. E precisa monitorar a execução mês a mês, quitando empenhos dentro do exercício para que o cálculo por pagas também fique acima do piso.

O que são emendas parlamentares?

Emendas parlamentares são recursos que deputados e senadores destinam a municípios por meio do orçamento federal. Para a saúde, esses recursos são uma fonte importante de custeio e investimento.

O processo funciona assim:

1
O parlamentar indica o recurso
2
O município cadastra a proposta no InvestSUS/FNS
3
O Ministério da Saúde analisa e aprova
4
O recurso é transferido para o Fundo Municipal de Saúde
5
O município executa e presta contas

Emendas parlamentares e São João da Ponta

As emendas parlamentares são uma fonte relevante de custeio e investimento para municípios de micro porte como São João da Ponta. O processo é feito pelo InvestSUS/FNS, com prévia aprovação do PMS e da PAS.

Por que isso importa para você? Porque essas emendas financiam diretamente o trabalho que acontece na ponta: materiais de consumo para APS, remuneração de profissionais, insumos de vacinação. Se o instrumento não estiver regular, o recurso não é liberado.
Atenção: atualmente o PMS 2026-2029 de São João da Ponta está com situação "Não Iniciado" no DGMP, o que bloqueia a liberação de emendas. Para destravar emendas em 2026, o PMS precisa ser concluído, aprovado pelo CMS e homologado.

As metas do PMS que envolvem gestão financeira

Uma das diretrizes do PMS (Gestão, Eficiência e Participação Social) trata diretamente da organização dos instrumentos de gestão e da eficiência operacional. Mas a gestão financeira atravessa praticamente todas as diretrizes, porque nenhuma meta se cumpre sem recurso.

Metas de gestão e instrumentos

MetaO que significa
Enviar PMS ao CMSO PMS precisa ser formalmente enviado ao Conselho
Monitorar o PMS quadrimestralmenteTrês avaliações por ano, via RDQA, que mostram se os recursos estão sendo bem aplicados
Alimentar o Banco de Preços em SaúdeRegistrar os preços que o município paga, para referência nacional
Regularizar as subfunções 303, 304 e 306Executar dotações nas subfunções hoje zeradas (suporte profilático, vigilância sanitária e alimentação/nutrição)
Zerar restos a pagar indevidosPagar empenhos dentro do exercício e evitar acumular passivo

Metas de assistência farmacêutica que envolvem compras

MetaO que significa
Manter Horus/e-SUS AF em 100% dos serviçosControle informatizado de medicamentos em todos os serviços
Realizar licitações para medicamentos e insumosGarantir abastecimento contínuo por meio de processos de compra regulares
Na prática: a licitação de medicamentos é um processo que envolve planejamento, pesquisa de preços, publicação de edital e execução do contrato. Se atrasa, a farmácia desabastece. Se o Banco de Preços não é alimentado, o município perde referência para negociar valores justos.

Como monitorar: RDQA, RAG e SIOPS

O dinheiro da saúde tem três mecanismos de acompanhamento que funcionam em ciclos:

RDQA (Relatório Detalhado do Quadrimestre Anterior)

Acontece três vezes por ano. Mostra como está a execução das metas e dos recursos no período. O Conselho Municipal de Saúde analisa o RDQA em audiência pública.

QuadrimestrePrazo de entrega
1o quadrimestre (jan-abr)Até 31 de maio
2o quadrimestre (mai-ago)Até 30 de setembro
3o quadrimestre (set-dez)Até 28 de fevereiro

RAG (Relatório Anual de Gestão)

Acontece uma vez por ano, até 30 de março do ano seguinte. Faz o balanço completo: o que foi planejado na PAS, quanto foi gasto, quais metas foram atingidas. O CMS emite parecer conclusivo sobre o RAG.

SIOPS (Sistema de Informações sobre Orçamentos Públicos em Saúde)

É o sistema do Ministério da Saúde onde o município registra quanto arrecadou e quanto gastou em saúde. O SIOPS é a ferramenta que permite ao governo federal verificar se o município está cumprindo a obrigação dos 15%. A alimentação do SIOPS é obrigatória e o atraso pode gerar bloqueio de transferências.

Calendário resumido de prestação de contas

InstrumentoFrequênciaQuem analisa
RDQAQuadrimestral (3x por ano)CMS em audiência pública
RAGAnualCMS emite parecer conclusivo
SIOPSBimestralMinistério da Saúde / DATASUS

O que pode dar errado?

O diagnóstico financeiro do PMS 2026-2029 identificou riscos que afetam diretamente o trabalho das equipes:

1. Descumprimento do mínimo constitucional pelo critério pago. Em 2024, por despesas pagas, São João da Ponta aplicou 14,13% em saúde (abaixo do piso de 15%). Isso pode gerar retenção de transferências federais, responsabilização do gestor e irregularidade na prestação de contas.

2. Restos a pagar indevidos e subfunções zeradas. Os R$ 612.576 em restos a pagar indevidos em 2024 e as três subfunções obrigatórias zeradas (303, 304 e 306) comprometem a regularidade contábil do SIOPS e podem gerar apontamentos em auditoria.

3. Emendas travadas por falta de instrumentos. O PMS 2026-2029 está com situação "Não Iniciado" no DGMP. Enquanto o instrumento não for concluído, aprovado pelo CMS e homologado, emendas parlamentares ficam bloqueadas. O dinheiro existe, mas não pode ser liberado.

4. Alta dependência de transferências. Como município de micro porte (4.470 habitantes), São João da Ponta tem 94,73% do financiamento vindo de transferências intergovernamentais. Se os critérios de repasse mudam, se há subcontagem cadastral dos ACS (apurar só pelo código antigo deixa de fora cerca de R$ 36 mil por agente ao ano) ou se há atraso no repasse, o impacto é imediato no funcionamento da rede.


O que eu posso fazer?

Mesmo que você não trabalhe no setor financeiro, suas ações no dia a dia afetam diretamente os recursos da saúde. Veja como contribuir:

1. Registre tudo o que faz. Cada atendimento registrado no e-SUS AB, cada vacina lançada no SI-PNI, cada notificação no SINAN gera dados que justificam os repasses federais. Produção não registrada é produção que não existe para o financiamento.

2. Cuide dos materiais e equipamentos. Desperdício de insumos, uso inadequado de equipamentos e falta de manutenção preventiva consomem recursos que poderiam ser usados em outra frente. A economia de cada equipe faz diferença no orçamento total.

3. Participe do monitoramento. Quando a coordenação pedir dados para o RDQA ou o RAG, responda com agilidade e precisão. Esses relatórios mostram ao Conselho, ao Ministério e à sociedade se os recursos estão sendo bem aplicados.

4. Entenda o PMS da sua área. Se você trabalha na APS, saiba quais metas dependem do seu trabalho. Se trabalha na Vigilância, conheça as metas ligadas a notificação, imunização e controle vetorial. Quando as metas não são atingidas, o gestor precisa explicar por que, e essa explicação começa na ponta.

5. Ajude a evitar desperdício de emendas. Emendas financiam ações que passam pelas equipes. Se os materiais de vacinação chegarem e não forem usados, se os insumos de APS ficarem no almoxarifado, o recurso foi desperdiçado. Execute o que chegar.

6. Acompanhe os prazos. O RDQA tem prazo. O RAG tem prazo. O SIOPS tem prazo. Atrasos geram problemas para o município inteiro. Quando a gestão pedir informações dentro de um prazo, é porque existe uma obrigação legal por trás.


Resumo rápido

PerguntaResposta curta
De onde vem o dinheiro da saúde?Federal (FNS), estadual (FES) e municipal (receita própria)
O que é o Fundo Municipal de Saúde?A conta onde entram todos os recursos destinados à saúde
O que são os blocos de financiamento?Custeio (dia a dia) e Investimento (obras, equipamentos)
São João da Ponta cumpre os 15%?Em 2024, 16,06% por empenhadas (cumpre) e 14,13% por pagas (abaixo do piso)
O que são emendas parlamentares?Recursos indicados por deputados/senadores para o município
Como a prestação de contas funciona?RDQA (quadrimestral), RAG (anual) e SIOPS (bimestral)
O que eu posso fazer?Registrar produção, cuidar dos materiais, participar do monitoramento
Assessoramento Akapu Saúde