Caderno de Saúde 01

Perfil Demográfico

Plano Municipal de Saúde 2026-2029

Município


1. Apresentação

Este Caderno integra a ASIS do PMS 2026-2029 de São João da Ponta. Seu objetivo é sistematizar os dados demográficos do município para identificar necessidades, definir prioridades e dimensionar a oferta de serviços de saúde.

Região de Saúde: Metropolitana III (22 municípios, sede Castanhal) Macrorregião de Saúde: Metropolitana (Pará) Porte: Micro (< 5.000 habitantes) IDH-M: 0,583 (baixo, Censo 2010)

Sumário

  1. Sumário gerado automaticamente a partir das seções do caderno.

Resumo Executivo

São João da Ponta entra no PMS 2026-2029 com uma transição demográfica em curso e um problema sério de qualidade da informação cadastral. Em 2025 o município reúne 4.470 habitantes (DW Akapu, série "População total"), com redução líquida de 165 habitantes (-3,56%) no recorte pós-Censo 2022-2025 e queda de 1.325 habitantes (-22,9%) na janela 2015-2025: sinal de que a demanda por saúde, daqui em diante, deve responder a uma população menor e mais envelhecida, com mudança de perfil mais expressiva do que de volume.

A composição etária pesa para os dois extremos. Os idosos (60 anos ou mais) já representam 17% da população — proporção bem acima da média estadual paraense (~10%) e em alta de 6,6% no mesmo quadriênio. No outro polo, a base infantil (0 a 14 anos) recua 13,2%, sob efeito da queda de fecundidade. A razão de dependência demográfica fica em 64,6% (soma das parcelas 0-14, com 36,6%, e 60+, com 28,0%); convém lembrar, porém, que esse indicador descreve estrutura etária, não dependência efetiva — boa parte da população 60+ permanece economicamente ativa, sobretudo na agricultura familiar e na pesca, e muitas famílias dependem do trabalho continuado de pessoas idosas e do benefício rural para a subsistência. Para o sistema de saúde, o sinal a reter é o ritmo do envelhecimento: a rede precisa expandir progressivamente a atenção ao idoso (linha de cuidado, atenção domiciliar, manejo de multimorbidade) sem desmontar a capacidade instalada materno-infantil. A inversão da razão de sexo a partir dos 80 anos (107,9 homens por 100 mulheres no geral, mas mulheres superam homens entre os mais velhos) confirma sobremortalidade masculina e justifica leitura de gênero nas causas externas, que se mantêm em patamar elevado de 49 a 72 internações ao ano.

A análise demográfica revela ainda um problema de governança da informação. A base do e-SUS AB registra 6.417 cidadãos vivos contra 4.470 estimados pelo IBGE — sobrecadastro de 43,6% — e nunca foi submetida a processo sistemático de inativação. Esse denominador inflado distorce indicadores de cobertura, compromete a apuração do cofinanciamento federal do Piso APS, no âmbito do Saúde Brasil 360 (Portaria GM/MS 3.493/2024), e dos demais cofinanciamentos federais com denominador populacional e prejudica a busca ativa pelos ACS, que perseguem pessoas que já não residem no território.

Para o quadriênio, três frentes são prioritárias ao PMS:

  • Implantar Atenção Domiciliar (SAD/Melhor em Casa, Portaria GM/MS 689/2023) e estruturar linha de cuidado do idoso, em resposta ao crescimento sustentado da faixa 60+.
  • Qualificar puericultura, busca ativa vacinal e vigilância do desenvolvimento neuropsicomotor, preservando a capacidade instalada infantil em vez de reduzi-la diante da retração da faixa 0-14.
  • Executar limpeza cadastral do e-SUS AB já no primeiro ano do quadriênio, com integração ao SIM e verificação em campo pelos ACS, como base técnica indispensável para todos os demais indicadores.

2. Localização e território

São João da Ponta situa-se no nordeste paraense, a 89 km de Belém, com área de 195,99 km2 e densidade de 22,8 hab/km2. O município é ribeirinho, com economia baseada na pesca artesanal, extrativismo e agricultura familiar. Integra a Região de Saúde Metropolitana III, que reúne 22 municípios.

2.1. Mapa do município

O território do município é apresentado a seguir com os limites oficiais. A leitura geográfica é insumo direto para a organização da rede de saúde, definindo dispersão da população, tempo de deslocamento até a sede municipal e até os polos regionais, e a viabilidade de equipes itinerantes ou de cobertura ribeirinha quando for o caso.

Área territorial: 195,99 km²

Fonte: malha territorial oficial do IBGE consolidada no Data Warehouse Akapu.

3. População total e série histórica (2015-2025)

AnoPopulaçãoVariação anual
20155.795-
20165.884+89 (+1,54%)
20175.970+86 (+1,46%)
20186.059+89 (+1,49%)
20196.139+80 (+1,32%)
20206.217+78 (+1,27%)
20216.294+77 (+1,24%)
20224.635-1.659 (-26,36%)
20234.548-87 (-1,88%)
20244.509-39 (-0,86%)
20254.470-39 (-0,86%)

Fonte: IBGE, estimativas populacionais anuais 2015-2021 (SIDRA, agregado 6579), Censo Demográfico 2022 e estimativas 2023-2025 consolidadas no Data Warehouse Akapu a partir das fontes oficiais do IBGE.

Ressalva metodológica. Quanto aos dados do IBGE, cabe registrar que há indícios de discrepâncias entre os resultados do Censo Demográfico 2022, as estimativas populacionais anuais e os registros locais de população utilizados no planejamento. Também foram observadas inconsistências na base do e-SUS AB, especialmente em cadastros ativos, inativações e duplicidades, o que pode produzir descasamento entre as informações. Por isso, IBGE e e-SUS AB são apresentados de forma comparativa, para subsidiar a análise técnica e a qualificação das bases de informação.

Análise

A população de São João da Ponta apresenta, no intervalo 2015-2025 segundo as estimativas oficiais do IBGE consolidadas no DW Akapu, queda muito acentuada decorrente da revisão do Censo 2022. Entre 2015 (5.795 hab) e 2021 (6.294 hab), as estimativas anuais pré-censitárias seguiram trajetória própria; o Censo Demográfico 2022 (4.635 hab) revelou superestimação de 26,4% em relação à projeção de 2021 (1.659 hab; -26,4%). Entre 2022 e 2025, as estimativas pós-Censo apontam 4.470 hab. No saldo da década (2015→2025), o resultado líquido é de 1.325 habitantes (-22,9%), a ser lido como tendência de fundo para o dimensionamento do sistema de saúde no quadriênio 2026-2029.

Para o planejamento, a demanda não crescerá em volume absoluto; ela mudará de perfil com o envelhecimento. A estabilização em 2024-2025 sugere que o município está próximo de atingir seu pico populacional para o ciclo demográfico atual.

3.1. Recorte pós-Censo 2022-2025

O recorte abaixo isola o intervalo pós-Censo 2022 para evidenciar a tendência efetivamente observada nas estimativas pós-censitárias do IBGE/DW Akapu (sem o ruído do salto entre a estimativa de 2021 e o resultado do Censo 2022) e permite ao gestor enxergar com clareza o ritmo da curva atual.

AnoPopulaçãoCrescimento absolutoTaxa de crescimento
20224.635--
20234.548-87-1,88%
20244.509-39-0,86%
20254.470-39-0,86%

No quadriênio 2022-2025, o município apresentou redução líquida de 165 habitantes (-3,56%), caracterizando uma trajetória de declínio sustentado com atenuação. A leitura ano a ano permite identificar se o ritmo está se acentuando, estabilizando ou revertendo, sinal direto para o dimensionamento da rede no quadriênio 2026-2029.

3.2. Crescimento natural: nascimentos e óbitos no pós-Censo

Para qualificar a leitura da desaceleração populacional, o caderno compara a variação estimada pelo IBGE com o crescimento natural registrado nos sistemas de informação em saúde: nascidos vivos do SINASC e óbitos do SIM. O saldo natural não explica sozinho a variação populacional — que também depende de migração, revisão censitária e atualização cadastral —, mas indica se a dinâmica biológica do município pressiona a população para crescimento ou retração.

AnoNascidos vivosÓbitosSaldo natural
20226529+36
20237627+49
20247746+31
20257148+23
Total289150+139

No acumulado de 2022 a 2025, São João da Ponta registrou 289 nascidos vivos e 150 óbitos, resultando em saldo natural positivo de +139 pessoas. Isso significa que os nascimentos ainda superam os óbitos; portanto, quando a população estimada cai ou cresce menos do que esse saldo sugeriria, a principal hipótese de planejamento passa a ser migração líquida negativa, revisão da base populacional ou inconsistência cadastral, e não ausência de nascimentos.

Em 2025, o saldo natural foi de +23 (71 nascimentos e 48 óbitos). Para o PMS 2026-2029, a implicação prática é que a desaceleração deve ser interpretada junto com a natalidade, a mortalidade e a mobilidade populacional: a rede materno-infantil não pode ser reduzida automaticamente, enquanto a linha de cuidado da pessoa idosa precisa crescer porque os óbitos acompanham o envelhecimento e a maior carga de condições crônicas.

População e-SUS AB no DW

IndicadorValor
População IBGE 20254.470
Cidadãos vivos ativos no e-SUS AB6.433
Total de cidadãos cadastrados no e-SUS AB6.549
Diferença e-SUS AB vs IBGE+1.963 (+43,9%)

A população operacional do e-SUS AB no DW soma 6.433 cidadãos vivos ativos. Esse número não substitui a população oficial do IBGE, mas é indispensável para interpretar cobertura, cadastro territorial, financiamento da APS e possíveis distorções dos indicadores. Diferenças relevantes entre e-SUS AB e IBGE devem orientar higienização cadastral, busca de duplicidades, inativação de óbitos e atualização de mudanças de domicílio.

Fonte: nascimentos do SINASC, base local municipal; óbitos do SIM, base local municipal. População e-SUS AB: e-SUS AB, base local municipal. Quando a base local SIM/SINASC/SINAN não está disponível no Data Warehouse Akapu, o caderno usa as bases federais DATASUS correspondentes e registra essa substituição na Nota Técnica de apresentação.

3.3. Projeção populacional para 2029 (fim do quadriênio PMS)

Esta subseção apresenta a projeção da população residente de São João da Ponta para o final do quadriênio do PMS 2026-2029. A projeção é estimada por regressão linear simples sobre a série pós-Censo 2022-2025, janela escolhida deliberadamente para evitar misturar a ruptura censitária de 2022 com a tendência efetivamente observada nas estimativas pós-censitárias. Intervalo de confiança 95% para 2029: 4.152-4.342.

AnoPopulaçãoCrescimento absolutoTaxa de crescimentoStatus
20254.470--Observado
20264.417-53-1,19%Projeção
20274.363-54-1,22%Projeção
20284.310-53-1,21%Projeção
20294.247-63-1,46%Projeção

Em 2029, a população projetada de São João da Ponta é de aproximadamente 4.247 habitantes (-223 hab; -4,99%) em relação a 2025, mantendo a taxa anual média observada no pós-Censo de -53 hab/ano. Essa projeção é insumo técnico de planejamento e não substitui a estimativa oficial IBGE/TCU quando publicada para o ano corrente: ao final de cada julho do ciclo, o caderno deve ser revisto à luz das novas estimativas anuais.

Para o PMS 2026-2029, a leitura prática é: o município deve dimensionar capacidade da rede, metas de cobertura e planejamento orçamentário considerando uma trajetória de redução ao longo do quadriênio. A projeção dialoga diretamente com as implicações descritas na subseção 3.4 e com os recortes específicos da pirâmide etária, do crescimento natural (nascimentos × óbitos) e da limpeza cadastral do e-SUS AB.

3.4. Implicações da desaceleração demográfica para o PMS 2026-2029

A trajetória demográfica de São João da Ponta no intervalo pós-Censo 2022-2025 é de declínio sustentado com atenuação recente: saldo líquido de -165 habitantes (-3,56%) no quadriênio. Combinado com a revisão do Censo 2022 (-1.659 hab; -26,36% em relação à projeção pré-censitária de 2021), a década 2015-2025 fechou com -1.325 habitantes (-22,9%). A leitura comum — "o município está encolhendo, então a rede pode encolher" — é equivocada. O que está em curso é transição demográfica acelerada: a base infantil retrai e a faixa 60+ avança. A demanda total muda de natureza, não apenas de volume.

Impacto direto no financiamento per capita. O Saúde Brasil 360 — cofinanciamento federal do Piso APS (Portaria GM/MS 3.493/2024) — e o PAB usam o denominador populacional. Município com menos habitantes recebe menos transferência, o custo per capita aumenta com o envelhecimento (idoso consome mais consultas, exames, medicamentos contínuos e atenção domiciliar). Configura-se uma tesoura: receita cai, custo unitário sobe. O DOMI do PMS 2026-2029 precisa antecipar essa assimetria, prever fontes próprias para o aumento de custo idoso e revisar metas de cobertura à luz da nova base populacional.

Distorção dos indicadores em vigência e prioridade da limpeza cadastral. As metas do PMS 2022-2025 e os pactos do então Previne Brasil (substituído em 2024 pelo cofinanciamento federal do Piso APS, no âmbito do Saúde Brasil 360 — Portaria GM/MS 3.493/2024) foram fixados sobre estimativas pré-Censo, agora corrigidas. Algumas coberturas reportadas como "atingidas" no quadriênio anterior, recalculadas com a base do Censo 2022, podem não ter sido atingidas — o RAG/RDQA do quadriênio anterior precisa ser relido com essa lente. Adicionalmente, o cadastro do e-SUS AB tende a acumular pessoas que migraram, faleceram sem registro ou foram duplicadas, e municípios com declínio populacional são os mais suscetíveis a sobrecadastro: a limpeza cadastral periódica, com integração ao SIM e verificação em campo pelos ACS, deve ser meta explícita do primeiro ano do PMS 2026-2029, antes de qualquer outra meta de cobertura.

Migração, força de trabalho e pressão regional. O declínio populacional na Amazônia paraense não é apenas queda de fecundidade — é também migração intermunicipal de pessoas em idade ativa para centros maiores. Castanhal (Região de Saúde Metropolitana III) é o principal destino dessa migração e o principal polo de referência da rede regional. Para o sistema de saúde, isso significa: (i) dificuldade crescente de fixação de médicos e enfermeiros em vínculo permanente, ampliando a dependência de PMMB e contratação temporária — exatamente o oposto do que o envelhecimento exige (longitudinalidade do cuidado); (ii) aumento do TFD (Tratamento Fora do Domicílio) para média e alta complexidade, com pressão sobre o município-polo regional, exigindo pactuação reforçada via CIR.

Posição estratégica para o PMS 2026-2029. É a maior superestimação relativa do grupo: o Censo 2022 revelou 26,4% menos população do que projetado para 2021. Soma-se a isso um sobrecadastro do e-SUS AB de 43,6% (6.417 cadastros vivos contra 4.470 habitantes IBGE), o que torna a limpeza cadastral pré-requisito absoluto para qualquer meta de cobertura no PMS 2026-2029. A recomendação é tratar a desaceleração não como notícia negativa, mas como gatilho para reorientação: priorizar reorganização qualitativa sobre expansão quantitativa; pactuar regionalmente o que não pode ser sustentado municipalmente; tornar a integração das bases de informação (e-SUS AB, SIM, SINASC, CNES) pré-requisito para metas de cobertura; blindar a fixação de profissionais em vínculo permanente como condição de longitudinalidade; e construir desde já a linha de cuidado da pessoa idosa, em vez de reagir quando a pressão se materializar.

4. Pirâmide etária (2025)

Faixa etáriaMasculinoFemininoTotal%
0-41561473036,8%
5-91761593357,5%
10-141851703557,9%
15-192011803818,5%
20-2933829062814,1%
30-3928832361113,7%
40-4930728659313,3%
50-5927023350311,2%
60-692271864139,2%
70-791281062345,2%
80+44701142,6%
Total2.3202.1504.470100%

Análise da estrutura

Base em retração: A faixa 0-4 (6,8%) é menor que 5-9 (7,5%) e 10-14 (7,9%), confirmando queda sustentada da fecundidade.

Bojo adulto: As faixas 20-49 concentram 41,1% da população, constituindo a força de trabalho e maior parcela de demanda por DCNT.

Topo em expansão: As faixas acima de 60 somam 17,0%, muito acima da média estadual do Pará (~10%).

Inversão de sexo no topo: A partir dos 80 anos, mulheres superam homens (70 vs 44), padrão de sobremortalidade masculina.

Predominância masculina: Razão de sexo geral de 107,9 homens/100 mulheres.

5. Grandes grupos etários

GrupoPopulação%
Crianças (0-14)99322,2%
Adolescentes (15-19)3818,5%
Adultos (20-59)2.33552,2%
Idosos (60+)76117,0%
Total4.470100%

Análise por grupo

Crianças (0-14) - 22,2%: Proporção ligeiramente acima da média nacional (~20%). Demanda por puericultura, imunização, vigilância nutricional. Grupo em contração.
Adolescentes (15-19) - 8,5%: Demandas de saúde sexual/reprodutiva, saúde mental, prevenção de violência. Gravidez na adolescência oscila entre 6% e 25% (DW/SINASC).
Adultos (20-59) - 52,2%: Maior segmento. Demanda atenção a DCNT (HAS, DM), saúde da mulher, saúde do trabalhador.
Idosos (60+) - 17,0%: Um em cada seis habitantes. Crescimento acelerado. Demanda geriátrica, atenção domiciliar, manejo de multimorbidade.

6. Índice de dependência e razão de sexo

Índice de dependência

ComponenteCálculoValor
Dependência juvenil (0-14)993 / 2.71636,6%
Dependência senil (60+)761 / 2.71628,0%
Dependência total1.754 / 2.71664,6%

Pela convenção etária do indicador, para cada 100 pessoas de 15 a 59 anos existem cerca de 65 pessoas fora dessa faixa (0-14 ou 60+). A parcela 60+ (28%) já é significativa e reflete o avanço do envelhecimento.

Como ler este indicador

O índice de dependência é uma medida estrutural de composição etária. No Brasil, segue a metodologia do DATASUS/RIPSA — Indicador A.16 (Razão de Dependência), que adota explicitamente POPA0014 (0-14 anos) e POPA6099 (60 anos ou mais) como população dependente e POPA1559 (15-59 anos) como população em idade ativa — recorte alinhado à definição de pessoa idosa do Estatuto da Pessoa Idosa (Lei 10.741/2003, art. 1º). Não é um diagnóstico de dependência econômica ou funcional efetiva.

Em municípios rurais e de menor renda como São João da Ponta, parcela expressiva da população 60+ permanece economicamente ativa — na pesca artesanal, no extrativismo, na agricultura familiar e em arranjos domésticos sustentados pela aposentadoria rural (Lei 8.213/1991, art. 39 e 143). Muitas famílias dependem do trabalho continuado de pessoas idosas e do benefício previdenciário rural para a subsistência. A IBGE/PNAD Contínua acompanha sistematicamente a participação no mercado de trabalho por faixa etária e mostra contingente relevante de pessoas com 60 anos ou mais ocupadas no Brasil, com participação ainda maior em contextos rurais.

Marcos normativos relevantes: a Lei 10.741/2003 (Estatuto da Pessoa Idosa) define como idosa a pessoa com 60 anos ou mais e assegura direito ao envelhecimento ativo e à autonomia; a Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa (Portaria GM/MS 2.528/2006, consolidada no Anexo IX da PC GM/MS 2/2017) e a Estratégia Brasileira para a Promoção da Pessoa Idosa (Decreto 9.921/2019) adotam o paradigma do envelhecimento ativo e da capacidade funcional, e não da dependência presumida pela idade cronológica.

Para o planejamento, este caderno usa o índice como sinalizador de tendência demográfica (ritmo de envelhecimento, comportamento da base infantil, transição etária) — não como medida da carga efetiva sobre a economia familiar ou sobre o sistema de saúde. A demanda real por serviços da pessoa idosa exige análise complementar (capacidade funcional, multimorbidade, suporte familiar, condições de moradia e renda) que outros componentes da ASIS aprofundam.

Razão de sexo: 107,9 homens para cada 100 mulheres

A predominância masculina é observada até os 70 anos. Na faixa 30-39, as mulheres superam os homens (323 vs 288), possivelmente por migração masculina. A inversão a partir dos 80 anos (44 homens vs 70 mulheres) confirma sobremortalidade masculina.

7. Transição demográfica: tendências (2022-2025)

Evolução dos grandes grupos

Grupo2022202320242025Variação
Crianças (0-14)1.1441.0861.037993-151 (-13,2%)
Adultos (20-59)2.3852.3622.3382.335-50 (-2,1%)
Idosos (60+)714718740761+47 (+6,6%)
Total4.6354.5484.5094.470-165 (-3,6%)
Tendências: Retração infantil acelerada (-13,2%), crescimento idoso (+6,6%), população total em declínio. Se projetado para 2029, a proporção de idosos pode alcançar 19-20%.

8. Implicações para o planejamento em saúde

8.1. Reorganização da atenção materno-infantil

Com retração da faixa 0-14, oportunidade para qualificar: puericultura completa, busca ativa vacinal, vigilância do DNPM.

8.2. Expansão da atenção ao idoso

17% com 60+ e em crescimento. Necessidade de SAD (Atenção Domiciliar), manejo de multimorbidade, prevenção de quedas. A Portaria GM/MS 689/2023 (Melhor em Casa) deve ser considerada.

8.3. Enfrentamento das causas externas

Sobremortalidade masculina + internações por causas externas em patamar elevado (49-72/ano). Ação intersetorial necessária.

8.4. Adequação da força de trabalho

Com 0,67 médicos/1.000 hab e 48,9% de temporários, a longitudinalidade do cuidado é comprometida. O envelhecimento exige mais, não menos, estabilidade profissional.

9. Problemas identificados

#ProblemaEvidência
P1Envelhecimento acelerado (17% com 60+, +6,6% no quadriênio) sem expansão da atenção ao idosoSérie histórica 2022-2025
P2Retração da base infantil (-13,2% na faixa 0-14) exige replanejamento qualitativoPirâmide 2022-2025
P3Índice de dependência demográfica elevado (64,6%) sinaliza ritmo acelerado de envelhecimento; ler como tendência de composição, não como dependência efetiva (cf. nota metodológica na seção 6)Cálculo 2025
P4Predominância masculina com sobremortalidade a partir dos 70 anosRazão de sexo
P5Declínio populacional (-3,6%) indica que a demanda muda de perfil, não de volumeSérie IBGE

Fonte: IBGE, Censo 2022 e estimativas. Data Warehouse Akapu, consulta abril/2026.

10. Dados populacionais do e-SUS AB

Esta seção confronta os dados do cadastro individual do e-SUS AB (base local PEC) com as estimativas do IBGE, evidenciando divergências que impactam o planejamento e o financiamento.

10.1. Totais gerais

Indicadore-SUS ABIBGE 2025Razão e-SUS/IBGE
Total de cadastrados6.532--
Cadastrados vivos6.4174.470143,6%
Falecidos registrados115--
Famílias2.468--
Domicílios2.891--

O e-SUS AB registra 6.417 cidadãos vivos, contra 4.470 estimados pelo IBGE, uma diferença de 1.947 pessoas (43,6% a mais). A divergência indica que a base cadastral nunca foi submetida a processo de inativação ou limpeza.

10.2. Pirâmide etária: e-SUS AB versus IBGE

Faixa etáriae-SUS ABIBGE 2025Razão
0-4360303119%
5-9550335164%
10-14534355150%
15-19555381146%
20-29983628157%
30-39956611157%
40-49810593137%
50-59643503128%
60-69516413125%
70-79337234144%
80+173114152%
Total vivos6.4174.470143,6%

A divergência é generalizada, mas mais acentuada nas faixas 5-9 (164%), 20-29 e 30-39 (ambas 157%). A faixa 0-4 apresenta a menor diferença (119%), possivelmente porque os cadastros de crianças são mais recentes e próximos da realidade. As faixas 50-69 apresentam divergência mais baixa (125%-128%), sugerindo melhor qualidade cadastral nesse segmento.

10.3. Distribuição por sexo

Sexoe-SUS ABIBGE 2025Razão
Feminino3.3382.150155%
Masculino3.0792.320133%
Total6.4174.470143,6%

A sobrecontagem feminina (155%) é maior que a masculina (133%). No IBGE, há predominância masculina (razão de sexo 107,9); no e-SUS AB, a predominância se inverte para feminina (razão 92,2 homens para cada 100 mulheres). Essa inversão pode indicar que mulheres em situação de mudança (migração, óbito, duplicidade) permanecem mais tempo na base sem inativação.

10.4. Problema: zero inativações

A base do e-SUS AB de São João da Ponta apresenta zero registros de inativação de cadastros. Cidadãos que migraram, faleceram sem registro no sistema ou possuem cadastros duplicados permanecem como "vivos" na base. Consequências:

Distorção de indicadores de cobertura: denominadores inflados reduzem artificialmente taxas de cobertura vacinal, pré-natal e outras.

Comprometimento do financiamento: o cadastro inflado pode gerar inconsistências nas apurações do cofinanciamento federal do Piso APS, no âmbito do Saúde Brasil 360 (Portaria GM/MS 3.493/2024).

Prejuízo à vigilância: listas de busca ativa incluem pessoas que não residem mais no território, desperdiçando esforço dos ACS.

Falsa demanda: o dimensionamento de equipes e insumos fica superestimado.

Recomendação para o PMS 2026-2029: incluir meta de limpeza cadastral do e-SUS AB no primeiro ano do quadriênio, com processo sistemático de inativação de cadastros desatualizados, integração com dados do SIM (óbitos) e verificação em campo pelos ACS.
Assessoramento Akapu Saúde

Lista de Siglas e Abreviações

SiglaSignificado
ACSAgente Comunitário de Saúde
AIHAutorização de Internação Hospitalar
APSAtenção Primária à Saúde
ASISAnálise de Situação de Saúde
CAPSCentro de Atenção Psicossocial
CIBComissão Intergestores Bipartite
CIRComissão Intergestores Regional
CNESCadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde
DATASUSDepartamento de Informática do Sistema Único de Saúde
DGMPDigiSUS Gestor - Módulo Planejamento
DOMIDiretrizes, Objetivos, Metas e Indicadores
DWData Warehouse
eSFEquipe de Saúde da Família
eSBEquipe de Saúde Bucal
e-SUS ABEstratégia e-SUS Atenção Básica
IBGEInstituto Brasileiro de Geografia e Estatística
MACMédia e Alta Complexidade
PASProgramação Anual de Saúde
PMSPlano Municipal de Saúde
RAGRelatório Anual de Gestão
RDQARelatório Detalhado do Quadrimestre Anterior
SIASistema de Informações Ambulatoriais
SIHSistema de Informações Hospitalares
SIMSistema de Informações sobre Mortalidade
SINANSistema de Informação de Agravos de Notificação
SINASCSistema de Informações sobre Nascidos Vivos
SIOPSSistema de Informações sobre Orçamentos Públicos em Saúde
SISABSistema de Informação em Saúde para a Atenção Básica
SMSSecretaria Municipal de Saúde
SUSSistema Único de Saúde
TFDTratamento Fora de Domicílio

Lista de Tabelas

  1. Lista gerada automaticamente a partir das tabelas do caderno.

Lista de Gráficos e Figuras

  1. Lista gerada automaticamente a partir dos gráficos e figuras do caderno.

Legislação Citada

A base normativa abaixo deve ser lida em conjunto com as normas específicas citadas no corpo do Perfil Demográfico. Os links apontam para fontes oficiais de consulta pública na internet.

NormaEmenta curta / uso no cadernoLink oficial
Constituição Federal de 1988Arts. 196 a 200 - base constitucional do SUShttps://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm
Lei no 8.080/1990Lei Orgânica da Saúde - organização, competências e planejamento do SUShttps://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8080.htm
Lei no 8.142/1990Participação social e transferências intergovernamentais no SUShttps://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8142.htm
Lei Complementar no 141/2012Aplicação mínima em ações e serviços públicos de saúde, fiscalização e controlehttps://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/lcp/lcp141.htm
Decreto no 7.508/2011Regiões de Saúde, Mapa da Saúde, planejamento regional e organização das redeshttps://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2011/decreto/d7508.htm
Portaria de Consolidação GM/MS no 1/2017Normas sobre organização e funcionamento do SUS; Título IV dos instrumentos de gestãohttps://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2017/prc0001_03_10_2017.html

Fontes de dados

  • IBGE - Censo Demográfico 2022 e estimativas populacionais municipais usadas como denominadores.
  • DATASUS - sistemas SIM, SINASC, SINAN, SIH/SUS, SIA/SUS, CNES, SISAB e SIOPS, conforme pertinência temática do caderno.
  • DigiSUS Gestor - Módulo Planejamento (DGMP) - instrumentos de gestão municipal e registros de monitoramento do ciclo anterior.
  • Data Warehouse Akapu - bases públicas e bases locais tratadas para análise histórica, com data de consulta registrada no corpo do caderno quando disponível.

Glossário técnico

TermoDefinição operacional
Análise de Situação de Saúde (ASIS)Leitura técnica das condições de saúde, da rede e dos determinantes sociais que fundamenta o Plano Municipal de Saúde.
Data Warehouse AkapuAmbiente analítico que consolida bases públicas e locais para gerar séries históricas e indicadores de apoio à gestão.
Mapa da SaúdeDescrição geográfica da distribuição de recursos humanos, ações, serviços e indicadores de saúde em uma região.
Plano Municipal de Saúde (PMS)Instrumento central de planejamento do SUS municipal para o período de quatro anos.
Programação Anual de Saúde (PAS)Desdobramento anual do PMS, com ações, metas e recursos previstos para cada exercício.
Caderno de Saúde - PMS 2026-2029 | Município | Assessoramento Akapu Saúde